Quanto se vive dentro de uma travessia?
curadora
RAFAELA PRESTES
fotógrafo
ADRIANO ELIAS
Ação de atravessar de um lado a outro de uma região, um rio, um mar, uma ponte ... e por que não de uma vida inteira? O ato da travessia traz consigo um volume de emoções e memórias, por meio de ausências e permanências.
Travessia Literária apresenta nesta exposição fragmentos desse trajeto, retratado numa viagem pela memória de Marco Aurélio de Souza que, numa espécie de ‘de volta pra minha terra’, apresenta histórias afetivas por meio de poemas e fotografias.
Professor. Escritor. Poeta. E filho de Rio Negro. Marco nos confirma o inevitável: podemos sair para o mundo, mudar de lugar, construir novas histórias, mas nunca deixaremos nossa origem, pois esta nos preenche e nos sustenta, com toda dor e alegria de sermos nós mesmos.
De autoria do fotógrafo rio-negrense Adriano Elias, o conjunto de nove fotografias da cidade completa a travessia e nos apresenta a atmosfera dos cenários em que as narrativas poéticas de Marco ocorrem. Traz desde a icônica Ponte Velha à sua casa de infância.
Cada imagem celebra um reencontro entre o hoje e um passado que foi vivido intensamente por entre casas, bairros, ruas e esquinas.
O território e o humano são entrelaçados por meio da palavra e da imagem. E aqui, convidamos você a conhecer uma das tantas travessias que cotidianamente (co)existem em Rio Negro. Lembrando que a sua está sendo feita neste exato momento. Então, aproveite! E sinta como tem sido sua travessia.

Em que saímos da casa dos pais
Sozinhos pela primeira vez
Eu era apenas um piá
Não mais que um piá
Do interior provincial
Do Paraná
E bem por isso não ousava
Conhecer nenhum Caetano
Nem samba nem Sampa
E nem outra cidade qualquer
Mas aos dez ou onze anos de idade
Decidi atravessar a ponte
Que emprenha a noite Interminável de Rio Negro
E dela nunca mais voltei
>>> Excerto do poema 'Travessia revisitada'

Pois minha voz embarga quando a pronuncio
Não falo aqui de Rio Negro
(Com ela eu luto por esporte e diversão)
Minha cidade é bem maior e faz limite
Com certos mistérios indecifráveis:
O reino mágico do Mario Bros
O poço sem fundo do Seu Luiz
A fábrica de sorvetes do tio Zize
A montanha mais alta do mundo
vencida por Mickey Mouse no gibi
>>> Excerto do poema 'A infância aos meus pés'

Chorando nossas faltas em reflexo
E um carretel de rosários que me guardam
Das armadilhas oníricas da madrugada
Como a melodia de uma missa de domingo
Jogando luz sobre os meus medos de dormir.
Minha mãe é o poema Perfeito, que jamais serei capaz de escrever,
Conquanto seus versos sejam logo os primeiros
Que afluem à mente, logo os mais simples
E irrefletidos, que saem assim
Espontâneos como um abraço
Da esperança na tristeza e na dor.
>>> Excerto do poema 'Retrato de Maria'

Em que topamos e decidimos seguir
Embalado pelas perguntas de sempre
E outras novelas que me impedem
Pegar no sono dos que nunca descansam.
[...]
Meu camarada,
Agora as noites já não ventam
E no entanto o universo inteiro
Ainda respira como antes
Desde as muretas brancas da Igreja matriz
Onde encostamos para um papo sem grilos
E sempre é cedo pra dizer “tou indo nessa”
[Nenhum de nós jamais precisa ir dormir].
>>> Excerto do poema 'Algum lugar perto daqui'

E vi lá longe a sua outra margem
Imaginando quando nela
Conseguiria chegar com os meus braços
Eu fui mocinho admirar o Rio Negro
E vi bem perto seu outro lado
(Bastava, para alcançá-lo,
Ter uma vara vagabunda de pescar)
Fui homem-feito admirar o Rio Negro
E vi distante, bem distante,
Sua barranca indiferente,
Bem diferente de todas as outras
De que consigo me lembrar
>>> Poema 'Eu fui menino admirar o Rio Negro'

Quando sua casa imigrante se enchia de colchões
E pratos e mosquitos e cadeiras espalhadas pela sala
E também dos seus cabelos mutantes
Que semana sim semana não
Ela pintava de roxo, vermelho ou lilás.
Um dia
A Vó deixou o seu cabelo
Descolorir.
Também a minha infância parece um pouco pálida
Quando estou longe de ti
Minha gelada
E sufocante
Cidadezinha.
>>> Poema 'Travessia - I'

Baldios
Da saudade
Ainda escuto aqueles gritos
De lá vou eu
Ou os ecos oníricos
Do estalo das tampinhas
Que as gasosas de framboesa
Cantavam alto na garagem lá de casa.
Na esquizofrenia momentânea
Da memória
Estou sempre descendo por ladeiras
Desesperadas
Em meu velotrol azul e preto
Inalcançável.
>>> Poema 'Travessia - II'

A casca aberta é o arsenal
De minha guerra vã
: rajadas de ardência aos olhos
Castanhos de quem
Evitava a casca como sua
(Fique no quintal o cheiro agreste
Que é dele somente)
Aquele cheiro, porém,
Era parte indisfarçável de quem fui
E nele também eu
Me descascava pra chamar sua atenção
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Quando cravo minhas unhas sobre seu sumo
Doce de inverno que já não há
Mas seu bagaço não é cítrico
: não fala de mimosas
Tampouco canta um elogio às maçãs]
Que suas mãos pudessem contornar o fedor
De quem de fato éramos aos fundos
De nossa casa imaculada de bonecas
Pouco me importa
O seu pedido fosse apenas
Um outro jeito de dizer
“Também te amo
Aqui estou sendo feliz
Sou tua irmã
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Em que saímos da casa dos pais
Sozinhos pela primeira vez
Eu era apenas um piá
Não mais que um piá
Do interior provincial
Do Paraná
E bem por isso não ousava
Conhecer nenhum Caetano
Nem samba nem Sampa
E nem outra cidade qualquer
Mas aos dez ou onze anos de idade
Decidi atravessar a ponte
Que emprenha a noite Interminável de Rio Negro
E dela nunca mais voltei
>>> Excerto do poema 'Travessia revisitada'

Pois minha voz embarga quando a pronuncio
Não falo aqui de Rio Negro
(Com ela eu luto por esporte e diversão)
Minha cidade é bem maior e faz limite
Com certos mistérios indecifráveis:
O reino mágico do Mario Bros
O poço sem fundo do Seu Luiz
A fábrica de sorvetes do tio Zize
A montanha mais alta do mundo
vencida por Mickey Mouse no gibi
>>> Excerto do poema 'A infância aos meus pés'

Chorando nossas faltas em reflexo
E um carretel de rosários que me guardam
Das armadilhas oníricas da madrugada
Como a melodia de uma missa de domingo
Jogando luz sobre os meus medos de dormir.
Minha mãe é o poema Perfeito, que jamais serei capaz de escrever,
Conquanto seus versos sejam logo os primeiros
Que afluem à mente, logo os mais simples
E irrefletidos, que saem assim
Espontâneos como um abraço
Da esperança na tristeza e na dor.
>>> Excerto do poema 'Retrato de Maria'

Em que topamos e decidimos seguir
Embalado pelas perguntas de sempre
E outras novelas que me impedem
Pegar no sono dos que nunca descansam.
[...]
Meu camarada,
Agora as noites já não ventam
E no entanto o universo inteiro
Ainda respira como antes
Desde as muretas brancas da Igreja matriz
Onde encostamos para um papo sem grilos
E sempre é cedo pra dizer “tou indo nessa”
[Nenhum de nós jamais precisa ir dormir].
>>> Excerto do poema 'Algum lugar perto daqui'

E vi lá longe a sua outra margem
Imaginando quando nela
Conseguiria chegar com os meus braços
Eu fui mocinho admirar o Rio Negro
E vi bem perto seu outro lado
(Bastava, para alcançá-lo,
Ter uma vara vagabunda de pescar)
Fui homem-feito admirar o Rio Negro
E vi distante, bem distante,
Sua barranca indiferente,
Bem diferente de todas as outras
De que consigo me lembrar
>>> Poema 'Eu fui menino admirar o Rio Negro'

Quando sua casa imigrante se enchia de colchões
E pratos e mosquitos e cadeiras espalhadas pela sala
E também dos seus cabelos mutantes
Que semana sim semana não
Ela pintava de roxo, vermelho ou lilás.
Um dia
A Vó deixou o seu cabelo
Descolorir.
Também a minha infância parece um pouco pálida
Quando estou longe de ti
Minha gelada
E sufocante
Cidadezinha.
>>> Poema 'Travessia - I'

Baldios
Da saudade
Ainda escuto aqueles gritos
De lá vou eu
Ou os ecos oníricos
Do estalo das tampinhas
Que as gasosas de framboesa
Cantavam alto na garagem lá de casa.
Na esquizofrenia momentânea
Da memória
Estou sempre descendo por ladeiras
Desesperadas
Em meu velotrol azul e preto
Inalcançável.
>>> Poema 'Travessia - II'

A casca aberta é o arsenal
De minha guerra vã
: rajadas de ardência aos olhos
Castanhos de quem
Evitava a casca como sua
(Fique no quintal o cheiro agreste
Que é dele somente)
Aquele cheiro, porém,
Era parte indisfarçável de quem fui
E nele também eu
Me descascava pra chamar sua atenção
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Quando cravo minhas unhas sobre seu sumo
Doce de inverno que já não há
Mas seu bagaço não é cítrico
: não fala de mimosas
Tampouco canta um elogio às maçãs]
Que suas mãos pudessem contornar o fedor
De quem de fato éramos aos fundos
De nossa casa imaculada de bonecas
Pouco me importa
O seu pedido fosse apenas
Um outro jeito de dizer
“Também te amo
Aqui estou sendo feliz
Sou tua irmã
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Em que saímos da casa dos pais
Sozinhos pela primeira vez
Eu era apenas um piá
Não mais que um piá
Do interior provincial
Do Paraná
E bem por isso não ousava
Conhecer nenhum Caetano
Nem samba nem Sampa
E nem outra cidade qualquer
Mas aos dez ou onze anos de idade
Decidi atravessar a ponte
Que emprenha a noite Interminável de Rio Negro
E dela nunca mais voltei
>>> Excerto do poema 'Travessia revisitada'

Pois minha voz embarga quando a pronuncio
Não falo aqui de Rio Negro
(Com ela eu luto por esporte e diversão)
Minha cidade é bem maior e faz limite
Com certos mistérios indecifráveis:
O reino mágico do Mario Bros
O poço sem fundo do Seu Luiz
A fábrica de sorvetes do tio Zize
A montanha mais alta do mundo
vencida por Mickey Mouse no gibi
>>> Excerto do poema 'A infância aos meus pés'

Chorando nossas faltas em reflexo
E um carretel de rosários que me guardam
Das armadilhas oníricas da madrugada
Como a melodia de uma missa de domingo
Jogando luz sobre os meus medos de dormir.
Minha mãe é o poema Perfeito, que jamais serei capaz de escrever,
Conquanto seus versos sejam logo os primeiros
Que afluem à mente, logo os mais simples
E irrefletidos, que saem assim
Espontâneos como um abraço
Da esperança na tristeza e na dor.
>>> Excerto do poema 'Retrato de Maria'

Em que topamos e decidimos seguir
Embalado pelas perguntas de sempre
E outras novelas que me impedem
Pegar no sono dos que nunca descansam.
[...]
Meu camarada,
Agora as noites já não ventam
E no entanto o universo inteiro
Ainda respira como antes
Desde as muretas brancas da Igreja matriz
Onde encostamos para um papo sem grilos
E sempre é cedo pra dizer “tou indo nessa”
[Nenhum de nós jamais precisa ir dormir].
>>> Excerto do poema 'Algum lugar perto daqui'

E vi lá longe a sua outra margem
Imaginando quando nela
Conseguiria chegar com os meus braços
Eu fui mocinho admirar o Rio Negro
E vi bem perto seu outro lado
(Bastava, para alcançá-lo,
Ter uma vara vagabunda de pescar)
Fui homem-feito admirar o Rio Negro
E vi distante, bem distante,
Sua barranca indiferente,
Bem diferente de todas as outras
De que consigo me lembrar
>>> Poema 'Eu fui menino admirar o Rio Negro'

Quando sua casa imigrante se enchia de colchões
E pratos e mosquitos e cadeiras espalhadas pela sala
E também dos seus cabelos mutantes
Que semana sim semana não
Ela pintava de roxo, vermelho ou lilás.
Um dia
A Vó deixou o seu cabelo
Descolorir.
Também a minha infância parece um pouco pálida
Quando estou longe de ti
Minha gelada
E sufocante
Cidadezinha.
>>> Poema 'Travessia - I'

Baldios
Da saudade
Ainda escuto aqueles gritos
De lá vou eu
Ou os ecos oníricos
Do estalo das tampinhas
Que as gasosas de framboesa
Cantavam alto na garagem lá de casa.
Na esquizofrenia momentânea
Da memória
Estou sempre descendo por ladeiras
Desesperadas
Em meu velotrol azul e preto
Inalcançável.
>>> Poema 'Travessia - II'

A casca aberta é o arsenal
De minha guerra vã
: rajadas de ardência aos olhos
Castanhos de quem
Evitava a casca como sua
(Fique no quintal o cheiro agreste
Que é dele somente)
Aquele cheiro, porém,
Era parte indisfarçável de quem fui
E nele também eu
Me descascava pra chamar sua atenção
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Quando cravo minhas unhas sobre seu sumo
Doce de inverno que já não há
Mas seu bagaço não é cítrico
: não fala de mimosas
Tampouco canta um elogio às maçãs]
Que suas mãos pudessem contornar o fedor
De quem de fato éramos aos fundos
De nossa casa imaculada de bonecas
Pouco me importa
O seu pedido fosse apenas
Um outro jeito de dizer
“Também te amo
Aqui estou sendo feliz
Sou tua irmã
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Em que saímos da casa dos pais
Sozinhos pela primeira vez
Eu era apenas um piá
Não mais que um piá
Do interior provincial
Do Paraná
E bem por isso não ousava
Conhecer nenhum Caetano
Nem samba nem Sampa
E nem outra cidade qualquer
Mas aos dez ou onze anos de idade
Decidi atravessar a ponte
Que emprenha a noite Interminável de Rio Negro
E dela nunca mais voltei
>>> Excerto do poema 'Travessia revisitada'

Pois minha voz embarga quando a pronuncio
Não falo aqui de Rio Negro
(Com ela eu luto por esporte e diversão)
Minha cidade é bem maior e faz limite
Com certos mistérios indecifráveis:
O reino mágico do Mario Bros
O poço sem fundo do Seu Luiz
A fábrica de sorvetes do tio Zize
A montanha mais alta do mundo
vencida por Mickey Mouse no gibi
>>> Excerto do poema 'A infância aos meus pés'

Chorando nossas faltas em reflexo
E um carretel de rosários que me guardam
Das armadilhas oníricas da madrugada
Como a melodia de uma missa de domingo
Jogando luz sobre os meus medos de dormir.
Minha mãe é o poema Perfeito, que jamais serei capaz de escrever,
Conquanto seus versos sejam logo os primeiros
Que afluem à mente, logo os mais simples
E irrefletidos, que saem assim
Espontâneos como um abraço
Da esperança na tristeza e na dor.
>>> Excerto do poema 'Retrato de Maria'

Em que topamos e decidimos seguir
Embalado pelas perguntas de sempre
E outras novelas que me impedem
Pegar no sono dos que nunca descansam.
[...]
Meu camarada,
Agora as noites já não ventam
E no entanto o universo inteiro
Ainda respira como antes
Desde as muretas brancas da Igreja matriz
Onde encostamos para um papo sem grilos
E sempre é cedo pra dizer “tou indo nessa”
[Nenhum de nós jamais precisa ir dormir].
>>> Excerto do poema 'Algum lugar perto daqui'

E vi lá longe a sua outra margem
Imaginando quando nela
Conseguiria chegar com os meus braços
Eu fui mocinho admirar o Rio Negro
E vi bem perto seu outro lado
(Bastava, para alcançá-lo,
Ter uma vara vagabunda de pescar)
Fui homem-feito admirar o Rio Negro
E vi distante, bem distante,
Sua barranca indiferente,
Bem diferente de todas as outras
De que consigo me lembrar
>>> Poema 'Eu fui menino admirar o Rio Negro'

Quando sua casa imigrante se enchia de colchões
E pratos e mosquitos e cadeiras espalhadas pela sala
E também dos seus cabelos mutantes
Que semana sim semana não
Ela pintava de roxo, vermelho ou lilás.
Um dia
A Vó deixou o seu cabelo
Descolorir.
Também a minha infância parece um pouco pálida
Quando estou longe de ti
Minha gelada
E sufocante
Cidadezinha.
>>> Poema 'Travessia - I'

Baldios
Da saudade
Ainda escuto aqueles gritos
De lá vou eu
Ou os ecos oníricos
Do estalo das tampinhas
Que as gasosas de framboesa
Cantavam alto na garagem lá de casa.
Na esquizofrenia momentânea
Da memória
Estou sempre descendo por ladeiras
Desesperadas
Em meu velotrol azul e preto
Inalcançável.
>>> Poema 'Travessia - II'

A casca aberta é o arsenal
De minha guerra vã
: rajadas de ardência aos olhos
Castanhos de quem
Evitava a casca como sua
(Fique no quintal o cheiro agreste
Que é dele somente)
Aquele cheiro, porém,
Era parte indisfarçável de quem fui
E nele também eu
Me descascava pra chamar sua atenção
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'

Quando cravo minhas unhas sobre seu sumo
Doce de inverno que já não há
Mas seu bagaço não é cítrico
: não fala de mimosas
Tampouco canta um elogio às maçãs]
Que suas mãos pudessem contornar o fedor
De quem de fato éramos aos fundos
De nossa casa imaculada de bonecas
Pouco me importa
O seu pedido fosse apenas
Um outro jeito de dizer
“Também te amo
Aqui estou sendo feliz
Sou tua irmã
>>> Excerto do poema 'Mimosa Minha Irmã'




